quinta-feira, 4 de setembro de 2008

O fim do silêncio sobre Isabella - Revista Época

Renata Pontes era a delegada de plantão quando a menina foi morta. Depois de meses sem falar sobre o caso, ela revela a ÉPOCA as evidências que pesam sobre os acusados, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá
Valdir Sanches

A DELEGADA
Renata Pontes comandou a investigação do caso Isabella, que comoveu o país. Ela diz não ter dúvidas sobre quem matou a menina Quem conversa com Renata Pontes fora do expediente esquece que ela é uma delegada de polícia. A menos que a conversa seja sobre o caso que a tornou conhecida em todo o país – a morte da menina Isabella. A delegada que comandou as investigações e pôs os acusados na cadeia, à espera de julgamento, tem uma fala tranqüila, uma certa docilidade. Reza todos os dias na capela da delegacia. Seu hobby é a pintura. Renata é uma pessoa serena como as paisagens que pinta. Mas, quando é preciso, pega em armas. Na Academia de Polícia, onde se formou há 11 anos, foi além do curso obrigatório de tiro: aprendeu a manejar a pistola calibre 45 que usa no trabalho – e metralhadoras.

Em serviço, a delegada não usa a clássica combinação de calça e tailleur. Prefere roupas mais confortáveis, sempre discretas – na terça-feira passada, vestia bata e calça legging, calçando sandálias de salto Anabela. Deixa à mão um sapato baixo, para suas saídas. Nos atendimentos do plantão, nas delegacias em que trabalhou, entrou em favela, pulou muro, andou em trilho de trem e picada no meio do mato. Enquanto trabalha, ela se concentra, procura manter um olhar técnico sobre o que investiga. No caso Isabella, Renata não resistiu. Chegava em casa angustiada, pensando “na mãe que não pode mais beijar sua filha”.

Na 9ª Delegacia, no Carandiru, zona norte de São Paulo, Renata é delegada-assistente. Em sua sala há uma boa mesa com poltrona de encosto alto, ar-condicionado e frigobar. A um canto, em pedestais, bandeiras do Brasil, de São Paulo e da Polícia Civil. No ano passado, a delegacia foi premiada por uma ONG holandesa. Às vezes, quando um colega do plantão sai em férias, Renata assume o lugar dele. Foi durante um plantão, das 20 horas às 8 da manhã, que o caso da menina Isabella chegou a sua mesa.

Num primeiro momento, a delegada falou com os jornalistas sobre o crime. Depois, decretou o sigilo do inquérito e não deu mais entrevistas. Só rompeu o silêncio na semana passada, ao receber ÉPOCA no elegante flat em que mora, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. A entrevista durou três horas. Foi à beira do jardim, numa mesa externa do restaurante do flat. Pela primeira vez, Renata contou os detalhes de como conduziu a investigação e apresentou todas as razões que a levaram a acusar o pai de Isabella, Alexandre Nardoni, e a madrasta da menina, Anna Carolina Jatobá, como autores do assassinato que chocou o país.


A VÍTIMA
Isabella Nardoni, assassinada aos 5 anos. O pai e a madrasta continuam presosEnquanto investigava a morte da menina, Renata lembrou outro crime de grande repercussão, que ela também atendeu. Estava de plantão na Divisão de Homicídios, em 2002, quando uma informação chegou: o empresário Manfred von Richthofen e sua mulher, Marísia, tinham sido mortos a pauladas enquanto dormiam, numa casa de classe média alta no Brooklin. Antes de ir à delegacia, a jovem filha do casal se dera ao trabalho de examinar o escritório do pai, na casa, e de constatar que um exato valor em dólares sumira. (O caso depois passaria para a equipe da região.) Renata estranhou a falta de sensibilidade da moça – que seria condenada, com o namorado e o irmão dele, pelo assassinato dos pais.

No caso Isabella, a sensação se repetiu. Em sua entrevista a ÉPOCA, Renata lembrou a longa conversa que teve com o casal Anna e Alexandre, nas primeiras horas da investigação. Apesar de ter notado que Anna era falante e articulada enquanto Alexandre era bem menos eloqüente, Renata notou uma incomum tranqüilidade nos dois, “a ponto de o Alexandre comentar ‘Olha, eu vou sair na Rede Globo’”. Alexandre e Anna, segundo Renata, não se emocionavam nem se preocupavam em saber o que acontecera. O discurso de ambos era o mesmo. Não tinham perguntas, mas respostas. “Eles não questionavam. Vinham com uma certeza, uma afirmação: ‘O que aconteceu foi isto’. Em momento algum perguntaram ‘por que alguém jogou a minha filha?’” Diziam que um ladrão entrara no apartamento deles, com uma cópia da chave. “Falavam ‘o ladrão chegou, o ladrão cortou a tela’, usavam a palavra ‘ladrão’”. O “ladrão” teria esperado até Alexandre chegar, com a menina dormindo, e deixá-la em sua cama. O pai teria então voltado ao carro, na garagem, para pegar os dois outros filhos pequenos e Anna. Nesse meio-tempo, o “ladrão” teria esganado Isabella, apertando-lhe o pescoço, e teria jogado a menina pela janela. E ainda teria trancado a porta ao sair. Por quê?

A pergunta atormentaria Renata durante os dias seguintes. “Eu estava analisando tudo, para começar a confirmar ou descartar fatos”, diz Renata. Ela chegara à 9ª Delegacia às 20 horas do sábado. Com a morte da menina, só daria o plantão por encerrado às 3 horas da madrugada da segunda-feira. Foi para casa com uma forte suspeita: Alexandre e Anna eram os autores do crime. “Forte suspeita, mas aberta a todas as possibilidades. Porque, afinal, estávamos no começo de uma investigação. Muita gente precisava ser ouvida, haveria o resultado das perícias. Nada era descartável”.

Para Olimpíada podem ser a "redenção" brasileira - Revista Época

Depois do desempenho decepcionante da delegação olímpica em Pequim, o Brasil vai às Paraolimpíadas com vários favoritos ao ouro e boas chances de ficar entre os dez primeiros no quadro geral de medalhas.
Margarida Telles
A participação do Brasil nas Olimpíadas de Pequim ficou abaixo do esperado, com um modesto 23º lugar, mas o país pode se redimir a partir deste sábado (6), quando começam os Jogos Paraolímpicos, também na capital chinesa. Se no cenário olímpico ainda somos coadjuvantes, muitos dos nossos atletas com deficiência vão para a China com chances de ouro e devem superar o desempenho nas Paraolimpíadas de Atenas-2004, quando o Brasil ficou em 14º entre 146 países participantes, com 33 medalhas (14 de ouro) – nossa melhor colocação na história da competição.

Embora o Comite Paraolímpico Brasileiro não faça projeções da campanha em Pequim, há uma boa chance de o país figurar pela primeira vez entre os dez mais bem colocados no quadro de medalhas.

Uma das maiores promessas de medalhas é o nadador mineiro Daniel de Faria Dias, de 20 anos, que vai estrear nos Jogos. No Parapan do Rio de Janeiro, em 2007, ele ganhou oito medalhas de ouro, o mesmo feito conseguido pelo nadador Michael Phelps em Pequim. Nas Paraolimpíadas, Daniel não terá como repetir a façanha do fenômeno americano, mas poderá levar para casa até cinco ouros. Com má formação congênita dos membros superiores e da perna direita, ele detém os recordes mundiais nas provas de 100m e 200m livre, 100m costas e 200m medley.

O atleta começou a nadar somente aos 16 anos. Seu pai, Paulo Dias, procurou a Associação Desportiva para Deficientes (ADD), em São Paulo, após ouvir uma palestra sobre inclusão social por meio do esporte. Depois de aprender todos os estilos da natação, o filho matriculou-se em uma academia de Bragança Paulista (SP).

Até ver pela TV os Jogos de Atenas, Daniel nem sabia que existiam esportes paraolímpicos. Agora, ele deve dividir o papel de destaque da delegação brasileira, ao lado do também nadador Clodoaldo Silva, ganhador de seis ouros em Atenas. Clodoaldo, que tem os movimentos das pernas comprometidos por uma paralisia cerebral na infância, chegou a ameaçar não participar dos Jogos, por conta da exigência do Comitê Paraolímpico Internacional para que seu grau de deficiência fosse reavaliado. Ele mudou da categoria S4 para S5, de atletas com menor dificuldade de locomoção, mas o Comitê Paraolímpico Brasileiro recorreu e será feita uma nova avaliação nesta sexta-feira (5). Se ele tiver mesmo de ficar na classe S5, não deverá conseguir repetir o desempenho de Atenas.

A delegação paraolímpica na China é a maior do Brasil na história dos Jogos e vai competir em 17 das 20 modalidades existentes (confira quadro no fim da página 2). Serão 188 atletas na China, 85 a mais que em Atenas-2004 e quase o triplo dos que foram a Sydney-2000. A expectativa de um bom desempenho em Pequim confirma a evolução dos atletas paraolímpicos brasileiros. Na primeira participação, em Munique-1972, não ganhamos nenhuma medalha, mas desde Atlanta-1996 a classificação brasileira no quadro de medalhas só melhora (confira o gráfico abaixo). O país que ficou no topo em Atenas foi a China, que obteve 141 medalhas (63 de ouro).

Outra estrela da natação paraolímpica brasileira é a paulista Fabiana Sugimori. Aos 27 anos, ela estreou nos Jogos em Atlanta-1996. É a atual bicampeã nos 50m livre e detém o recorde mundial da prova. Sobre as expectativas para Pequim, Fabiana prefere ser cautelosa. “É uma prova de velocidade. Às vezes uma batida de mão é decisiva.”

quinta-feira, 28 de agosto de 2008